sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Como não cair em uma fake news em tempos de IA e polarização política

Não acredite em tudo o que você vê ou em tudo o que lhe falam. Uses os seus próprios neurônios.

A mentira sempre acompanhou a história humana, mas a combinação entre redes sociais, campanhas políticas polarizadas e ferramentas de inteligência artificial generativa transformou a desinformação em um problema estrutural da vida pública. Hoje, a pergunta relevante já não é “se” teremos contato com fake news, mas “quando” e “como” vamos reagir diante delas. Nesse cenário, alfabetização midiática, pensamento crítico e responsabilidade individual deixaram de ser luxos acadêmicos e tornaram-se competências de sobrevivência democrática.

O termo “fake news” é enganoso porque sugere algo periférico, como um boato qualquer, quando na prática estamos diante de um ecossistema de desinformação: conteúdos fabricados, fora de contexto, manipulados ou parcialmente verdadeiros, produzidos com intencionalidade política, econômica ou ideológica. Não se trata apenas de erro; trata-se de estratégia. Campanhas coordenadas exploram algoritmos de recomendação, segmentação de públicos e emoções fortes (medo, raiva, ressentimento) para capturar atenção e moldar percepções sobre temas sensíveis, como eleições, vacinação e políticas públicas.

A inteligência artificial aprofunda esse quadro ao baratear a produção de falsificações sofisticadas. Textos, imagens, áudios e vídeos podem ser gerados ou alterados com verossimilhança crescente, em escala industrial e com grande rapidez. A fronteira entre o documental e o fabricado torna-se difusa, e o senso comum, treinado para “acreditar no que vê”, torna-se presa fácil de deepfakes, montagens e narrativas cuidadosamente roteirizadas. Ao mesmo tempo, estudos mostram que apenas checagens pontuais -- ainda que necessárias -- não bastam: é preciso formar cidadãos capazes de reconhecer por conta própria os sinais da manipulação.

Não cair em uma fake news, portanto, exige mudar a postura diante da informação. O primeiro gesto é desacelerar. Notícias falsas prosperam na lógica do compartilhamento impulsivo, motivado antes por adesão afetiva do que por verificação racional. Em contextos polarizados, muitas pessoas compartilham aquilo que reforça sua identidade política, religiosa ou ideológica, mesmo sem ler integralmente o conteúdo. Suspender por alguns segundos a vontade de “passar adiante” já é um ato de resistência: perguntar “quem ganha se eu acreditar nisso?” ou “que evidências são apresentadas e de onde vêm?” recoloca o leitor na posição de sujeito crítico, não de mero vetor de propaganda.

Um segundo movimento é deslocar o foco da mensagem para as fontes. Desinformação prospera quando a origem se torna opaca, quando não se sabe quem fala, com que interesse e com qual histórico de confiabilidade. Ao avaliar um conteúdo, vale observar se há identificação clara do autor ou veículo, se as fontes citadas podem ser rastreadas em documentos públicos, artigos científicos ou portais institucionais, e se outras organizações, especialmente as que discordam entre si, corroboram ou não a mesma informação. A multiplicidade de fontes confiáveis é um antídoto potente contra a monocultura informacional que sustenta a desinformação organizada.

A verificação em serviços de checagem de fatos complementa esse processo, mas não o substitui. Agências especializadas possuem metodologias públicas de apuração, cruzam dados, consultam especialistas e expõem seus critérios, o que oferece ao leitor uma camada adicional de segurança. No entanto, pesquisas recentes mostram que as checagens alcançam sobretudo quem já confia em jornalismo profissional, encontrando resistência justamente nos grupos onde a desinformação é mais intensa. Isso reforça a tese de que checar é necessário, mas insuficiente: a batalha central é pedagógica, não apenas técnica.

Por isso, a educação midiática e informacional emerge como eixo estratégico. Em diferentes campos -- da escola básica à formação em saúde -- estudos apontam que programas que ensinam a ler mídias, analisar narrativas, identificar manipulações e compreender o funcionamento das plataformas digitais produzem cidadãos mais resistentes à desinformação. Não se trata de oferecer “listas de sites confiáveis”, mas de desenvolver competências: comparar versões, reconhecer vieses, avaliar evidências e perceber quando uma mensagem apela mais ao medo ou ao ódio do que ao argumento.

Em contextos de campanha política polarizada, essas competências assumem outra camada de complexidade. Notícias falsas não circulam apenas em perfis anônimos; elas atravessam grupos de família, comunidades religiosas, redes de amigos e espaços profissionais, muitas vezes travestidas de “alertas importantes” ou “informações censuradas pela mídia”. Nesses ambientes, a correção frontal pode ser percebida como ataque pessoal. Pesquisas sobre comunicação em saúde e desinformação mostram que abordagens dialógicas, respeitosas e graduais tendem a ser mais eficazes do que confrontos agressivos que apenas reforçam a identidade de grupo e o sentimento de perseguição.

Há também uma dimensão coletiva nesse desafio. Estudos sobre desinformação em saúde, vacinas e pandemia indicam que o enfrentamento efetivo de fake news requer ações intersetoriais: políticas públicas, regulação de plataformas digitais, iniciativas de divulgação científica e comunicação pública coordenada. Delegar tudo ao indivíduo é injusto e ineficaz. Ao mesmo tempo, ignorar a responsabilidade pessoal seria ingenuidade. O cidadão que escolhe verificar antes de compartilhar, que prioriza fontes com compromisso público e que se dispõe a aprender continuamente sobre o ecossistema informacional já participa de uma forma concreta de cidadania digital.

Em tempos de IA generativa, o desafio ganha uma dimensão ética adicional. Ferramentas capazes de produzir conteúdo em massa podem servir tanto à educação quanto à manipulação, tanto à transparência quanto à opacidade. A questão central deixa de ser apenas “o que a tecnologia pode fazer?” e passa a ser “a serviço de quem e de que valores ela é colocada?”. Nesse sentido, a responsabilidade não é exclusiva dos usuários finais, mas também de desenvolvedores, empresas, reguladores e instituições de ensino, que precisam explicitar critérios éticos na concepção, uso e avaliação de sistemas automatizados de produção e disseminação de informação.

Não cair em uma fake news, portanto, é menos um truque pontual e mais uma postura permanente. Exige humildade intelectual para admitir que todos somos vulneráveis ao erro; coragem para revisar crenças à luz de evidências; paciência para checar antes de compartilhar; e compromisso com um espaço público em que divergências políticas não autorizam a destruição da própria ideia de verdade. Em última instância, a luta contra a desinformação não é apenas uma guerra de dados, mas uma disputa pelo tipo de sociedade que queremos construir: uma sociedade em que a discordância se faz com argumentos, e não com mentiras fabricadas sob medida para alimentar ressentimentos. 

#FakeNews #Política #Reflexão

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