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sábado, 12 de outubro de 2024

Quais razões levam candidatos de extrema direita a receberem apoio nas eleições?

 

Sempre me deixou intrigado como Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Bolsonaro no Brasil ou Donald Tramp nos EUA chegaram ao poder. Claro que existe toda uma contextualização histórica e social que explicam os motivos desses processos de ascensão ao poder. Acredito que algumas das características comuns a essas criaturas são a fome de poder, egoísmo e narcisismo. Ingenuamente eu imaginava que o progresso material poderia nos manter livres de tais líderes, mas é claro que a realidade está aí para me mostrar o contrário.

Mesmo os regimes democráticos não estão livres de elegerem candidatos extremistas. O apoio massivo a candidatos de extrema direita em eleições gerais pode ser atribuído a uma combinação de fatores sociais, econômicos, culturais e políticos. Nos últimos anos, várias regiões do mundo testemunharam o crescimento de movimentos de extrema direita, e embora as razões possam variar de país para país, alguns motivos comuns podem explicar o sucesso desses candidatos.

1. Insegurança Econômica e Desigualdade

A instabilidade econômica, como crises financeiras, aumento da desigualdade de renda, desemprego e precarização do trabalho, muitas vezes leva a uma sensação de insatisfação com o status quo. Candidatos de extrema direita frequentemente exploram esse descontentamento ao prometer soluções rápidas e radicais, muitas vezes defendendo políticas protecionistas, anti-globalização e anti-imigração, como forma de proteger empregos nacionais.

  • Exemplo: Promessas de "reindustrializar" a economia e proteger empregos locais podem atrair eleitores que se sentem economicamente ameaçados pela concorrência global e pelo livre mercado.

2. Rejeição do Estabelecimento Político

Muitos eleitores que apoiam candidatos de extrema direita são movidos por uma frustração com o sistema político tradicional. Eles veem a elite política como corrupta, distante das necessidades do povo e incapaz de resolver problemas crônicos, como corrupção, burocracia e falta de governança. Candidatos de extrema direita frequentemente se apresentam como "anti-establishment", prometendo "limpar" a política e dar poder ao "povo comum".

  • Exemplo: O uso da retórica de "outsider" ou "antissistema" muitas vezes ressoa com aqueles que perderam a fé nas instituições políticas convencionais.

3. Medo da Imigração e da Mudança Demográfica

O crescimento da imigração e as mudanças demográficas em vários países levaram ao aumento de tensões culturais. Candidatos de extrema direita frequentemente capitalizam o medo de que a imigração esteja mudando a identidade nacional, pressionando os serviços públicos e tirando oportunidades dos cidadãos nativos. Isso é acompanhado por um discurso sobre a proteção da cultura e dos valores tradicionais.

  • Exemplo: Políticas de imigração mais rígidas e a defesa da soberania nacional são comumente propostas para atrair eleitores preocupados com a influência de culturas estrangeiras e a segurança das fronteiras.

4. Nacionalismo e Identidade Cultural

O nacionalismo é outro fator que explica o apelo da extrema direita. Esses candidatos frequentemente enfatizam a ideia de "recuperar" a nação e restaurar seu "orgulho" ou "grandeza". Eles apelam para sentimentos de nostalgia, muitas vezes propondo uma volta a tempos percebidos como melhores, onde a identidade nacional e os valores eram mais homogêneos.

  • Exemplo: Slogans como "fazer o país grande novamente" ou "reconquistar o que é nosso" apelam ao desejo de proteger a identidade cultural nacional de influências externas.

5. Polarização Social e Cultural

Em muitos países, a sociedade está profundamente polarizada em questões culturais, como direitos LGBTQIA+, aborto, igualdade de gênero, e secularismo versus religiosidade. Candidatos de extrema direita geralmente adotam posições conservadoras ou ultraconservadoras sobre esses temas, atraindo eleitores que se opõem às mudanças sociais e culturais promovidas por movimentos progressistas.

  • Exemplo: A defesa de valores "tradicionais" de família e religião é um pilar de plataformas políticas da extrema direita, que contrastam com a agenda progressista em questões de direitos civis e igualdade.

6. Uso Eficaz das Redes Sociais e Comunicação

Candidatos de extrema direita têm sido particularmente eficazes no uso das redes sociais para se conectar diretamente com os eleitores. Ao ignorar a mídia tradicional, que muitas vezes é vista como hostil ou tendenciosa, eles conseguem espalhar sua mensagem de maneira mais simples, emocional e direta. Esse tipo de comunicação é muitas vezes adaptado para gerar reações rápidas e criar uma narrativa de nós contra eles.

  • Exemplo: O uso de plataformas como Facebook, Twitter e YouTube para disseminar mensagens populistas e nacionalistas, além de fake news e teorias da conspiração, é uma estratégia frequente.

7. Medo da Globalização

A globalização trouxe muitos benefícios, mas também gerou desafios e desigualdades. Muitas pessoas sentem que foram deixadas para trás, seja pela perda de empregos para mercados estrangeiros ou pela percepção de que as instituições internacionais (como a ONU ou a União Europeia) estão interferindo em questões nacionais. A extrema direita geralmente adota um tom anti-globalização, defendendo o protecionismo econômico e a soberania nacional.

  • Exemplo: Discursos contrários a acordos de livre comércio ou à participação em blocos econômicos internacionais são comuns, com a promessa de priorizar a economia doméstica.

8. Crises Migratórias e Percepção de Ameaça

Quando há crises migratórias (como a chegada em massa de refugiados), as ansiedades sobre segurança, terrorismo e perda de controle sobre as fronteiras aumentam. A extrema direita explora esses medos, associando imigração a problemas de segurança e criminalidade, mesmo quando os dados nem sempre sustentam essas alegações.

  • Exemplo: Políticos de extrema direita podem defender a construção de muros, maior vigilância nas fronteiras e deportações em massa para evitar o "desequilíbrio" causado pela imigração.

9. Reação Contra o Politicamente Correto

O conceito de "politicamente correto" é frequentemente criticado por políticos de extrema direita, que alegam que a liberdade de expressão está sendo suprimida e que as pessoas estão sendo forçadas a aceitar ideias com as quais não concordam. Esse discurso atrai eleitores que se sentem alienados pelas normas sociais progressistas e querem um retorno ao discurso mais "autêntico" e menos regulado.

  • Exemplo: Discurso franco e "sem filtros" é uma marca de muitos líderes de extrema direita, que utilizam uma retórica mais agressiva contra grupos que defendem causas progressistas.

10. Insegurança em Relação à Globalização Cultural

A globalização não impacta apenas a economia, mas também a cultura. O medo de perda de identidade nacional e valores culturais leva muitos a apoiarem movimentos de extrema direita que defendem um fechamento às influências culturais externas.

  • Exemplo: Movimentos contra a "globalização cultural" e a "erosão dos valores tradicionais" frequentemente são articulados por esses candidatos.

Em suma, o apoio massivo a candidatos de extrema direita reflete uma combinação de fatores econômicos, culturais e políticos, incluindo a insatisfação com o status quo, o medo da mudança e a busca por soluções rápidas e assertivas em tempos de crise.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Inteligência artificial e Deep fake news: como distinguir o que é verdade do que é falso?

Foto real do ataque de um T-Rex na cidade de São Paulo. Hoje qualquer um pode fabricar imagens falsas. Algumas podem ser facilmente detectadas.

"As imagens se tornaram quase indistinguíveis [das reais]", afirma. "Não se pode mais acreditar no que se ouve ou vê nos dispositivos eletrônicos. É preciso pesquisar e não sair compartilhando, por mais que pareça real." - Alberto Ferreira de Souza, doutor em Ciência da Computação pelo University College London e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo.

Introdução
Saber se uma fotografia, áudio ou vídeo é "real" ou "fabricado" pode ser uma tarefa bastante problemática em nossos dias. A ascensão da inteligência artificial (IA) trouxe consigo a capacidade de criar vídeos falsos, conhecidos como deepfakes, que representam um desafio significativo para a sociedade moderna. Essas manipulações de mídia, alimentadas por algoritmos avançados, têm o potencial de enganar e manipular as massas, comprometendo a confiança nas informações e minando a integridade das comunicações. Neste texto, exploraremos os desafios associados às deep fake news e discutiremos estratégias para ajudar as pessoas a discernir a autenticidade dos vídeos.

Tecnologia de Geração de Deepfakes
As deepfakes utilizam técnicas de aprendizado profundo para sintetizar vídeos falsos convincentes, substituindo o rosto de uma pessoa em um vídeo original por outro. Essas tecnologias estão em constante evolução, tornando-se cada vez mais acessíveis e sofisticadas. O desafio reside na capacidade de replicar detalhes faciais, expressões e movimentos corporais de maneira quase imperceptível, o que dificulta a detecção visual direta. 

Ameaça à Integridade da Informação
A disseminação de deep fake news apresenta uma ameaça à integridade da informação. Políticos, celebridades e indivíduos comuns podem ser alvo de manipulações que visam difamar, desacreditar ou criar narrativas fictícias. Isso compromete a confiança do público nas fontes de notícias e desafia a capacidade das pessoas de discernir entre realidade e ficção. 

Dificuldade de Detecção Automática
Detectar deepfakes tornou-se uma corrida entre os criadores dessas tecnologias e os desenvolvedores de ferramentas de detecção. As técnicas de geração avançaram mais rapidamente do que as capacidades de detecção, resultando em uma lacuna que pode ser explorada para disseminar desinformação. A detecção automática é desafiadora devido à adaptabilidade dos algoritmos de geração, que conseguem evoluir para contornar métodos de identificação. 

Educação e Conscientização
Uma abordagem fundamental para combater deep fake news é a educação pública. As pessoas precisam ser conscientizadas sobre a existência dessa tecnologia e os riscos associados. Compreender as sutilezas dos deepfakes, como inconsistências na iluminação, movimentos faciais irregulares e problemas de áudio, pode capacitar as pessoas a questionar a autenticidade dos vídeos que encontram. 

Verificação de Fontes e Contexto
Ao encontrar um vídeo suspeito, é crucial verificar as fontes e o contexto. Investigar a origem do vídeo, analisar a credibilidade da fonte e procurar por informações adicionais são passos importantes para validar ou refutar a autenticidade de uma peça de mídia. A conscientização sobre práticas de verificação de informações é essencial para evitar a propagação de desinformação. 

Desenvolvimento de Ferramentas de Detecção
Investir em pesquisa e desenvolvimento de ferramentas de detecção de deepfakes é imperativo. Especialistas em IA e segurança cibernética precisam colaborar para criar métodos mais eficazes e ágeis de identificar vídeos manipulados. A integração dessas ferramentas em plataformas de mídia social e reprodutoras de vídeo pode ser uma medida crucial para combater a disseminação de deep fake news. 

Conclusão
As deep fake news representam uma ameaça substancial à integridade da informação e à confiança pública. Combater esse fenômeno requer uma abordagem abrangente, envolvendo educação, conscientização e desenvolvimento contínuo de tecnologias de detecção. Ao equipar as pessoas com as ferramentas e o conhecimento necessários, podemos mitigar os impactos negativos das deepfakes e preservar a confiabilidade das informações na era da inteligência artificial.

Sobre eleições e deepfake - ver aqui.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Por que Bolsonaro não merece o meu voto


Como engenheiro e professor, ao longo de mais de 30 anos como profissional, eu aprendi que não existe o óbvio. Então, eu quero explicar para você por que eu não voto em bolsonaro e por que ele não merece o seu voto no dia de 30 de outubro.

Tudo o que eu vou falar aqui está bem documentado e registrado na impressa e divulgado na internet. Não vou citar esses fatos em ordem cronológica, mesmo porque alguns ainda estão acontecendo ou aconteceram de forma mais ou menos simultânea.

1. Bolsonaro, em alto e bom som, deu apoio ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Eu não tenho como apoiar quem é fã declarado um torturador ignóbil.

2. Bolsonaro criou o orçamento secreto. Ele criou o orçamento secreto para comprar deputados e não sofrer o processo de impeachment. Esse orçamento movimenta bilhões de reais. Esse dinheiro saiu das áreas de Educação e Saúde.

3. Bolsonaro é diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiro durante a pandemia da covid, pois não agiu corretamente durante toda a pandemia. Ele atrasou a compra das vacinas, deu mau exemplo com suas motociatas, trocou de ministros da saúde no auge da pandemia, incentivou o uso de medicamentos que não servem para combater a covid. Disse que você iria virar jacaré se tomasse a vacina. Na minha estimativa, das mais de 600 mil mortes de covid no Brasil, pelo menos 200 mil mortes podem ser atribuídas diretamente ao atual presidente. Vocês lembram da crise de falta de oxigênio em Manaus? Bolsonaro zombou das pessoas que morriam com falta de ar em plena pandemia.

4. Bolsonaro apoia o garimpo ilegal, a destruição da floresta amazônica, as queimadas no Pantanal. Bolsonaro faz pouco caso da vida dos povos nativos, ele esvaziou a FUNAI. Ele demitiu o presidente do INPE, o cientista Ricardo Galvão, pois Galvão defendeu que os dados científicos do INPE sobre o aumento do desmatamento da Amazônia estavam corretos.

5. As Universidades e Institutos Federais estão hoje sem recursos para pagar as contas básicas. Os recursos para a Educação só diminuíram durante o governo bolsonaro. Bolsonaro é contra a educação. Ele não quer que você estude, ele não quer que você use o seu próprio cérebro. Ele não quer livros, ele defende mais armas na mãos das pessoas, mais violência e mortes. Você quer mais armas circulando? Você quer morrer de bala perdida?

6. Ele não é honesto. Ele está envolvido em muitos casos de corrupção e enriquecimento ilícito, dele e dos filhos. Lembra do caso das rachadinhas e da compra de mansões com dinheiro vivo? Isso tem cheiro de lavagem de dinheiro. Ele exonerou os policiais federais que começaram a chegar perto dele ou de seus filhos. Ele decretou sigilo nos gastos da presidência. Este governo federal mantém cerca de 98% dos gastos com cartão corporativo em sigilo.

7. Bolsonaro não respeita as mulheres. Ele já deu vários exemplos ao vivo disso, especialmente contra jornalistas e políticas. Ele é preconceituoso e homofóbico. Ele se associou a falsos religiosos que querem apenas mais dinheiro e poder. Esses mesmos religiosos querem que seus fieis votem em bolsonaro. Aqui eu faço uma pergunta: é correto misturar política e religião desta forma?

8. Bolsonaro se diz religioso, mas inúmeras de suas afirmações públicas não são defensáveis. Um exemplo: você consegue enxergar sustentação bíblica no posicionamento de alguém que defende que o policial militar que entra em uma favela e mata 10, 15, 20 ou 30 pessoas, deveria ser condecorado e não julgado? Existe sustentação nos evangelhos para apoiar a tortura e a morte de presos políticos?

Esses são os principais motivos que fazem com que bolsonaro não mereça o meu voto ou o seu voto. Eu não voto de jeito nenhum em bolsonaro. Você tem todo o direito de não querer votar em Lula, mas votar em bolsonaro é um grande erro. Na minha opinião, votar em bolsonaro é um grave erro político e, inclusive, religioso.

No dia 30 de outubro, vote consciente. Vote em paz. Vote com amor, não vote com ódio no coração. Obrigado por ter lido até aqui. Boas eleições.