segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Religião e Política se misturam? Porque eu voto na 'esquerda'.

Evangelho, partilha e crítica ao egoísmo: passagens do Novo Testamento e do Livro de Mórmon

Evangelho, partilha e crítica ao egoísmo: passagens do Novo Testamento e do Livro de Mórmon

Por Francisco J. A. de Aquino • Publicado em setembro de 2026

Em tempos de eleições no Brasil, é comum ouvir discursos que apelam para “valores cristãos” ou para uma suposta “moral religiosa” da sociedade. Nesse contexto, vale lembrar o que de fato dizem as escrituras sagradas sobre riqueza, partilha, justiça social e responsabilidade para com os pobres. Tanto o Novo Testamento quanto o Livro de Mórmon contêm passagens que valorizam o coletivo, condenam o egoísmo e alertam contra o acúmulo de bens quando ele gera indiferença, opressão ou idolatria do dinheiro. Este texto reúne algumas dessas passagens, sem pretensão de fazer teologia partidária, mas como subsídio para quem deseja pensar a vida pública à luz do Evangelho e de princípios de solidariedade. Pessoalmente, acredito que essas passagens justificam que o meu voto seja direcionado aos partidos 'da esquerda' brasileira. Não significa que eu apoio completamente todas as pautas desses partidos, mas que o as lutas sociais têm maior peso para mim.

1. Novo Testamento: riqueza, partilha e crítica ao acúmulo egoísta

1.1 O jovem rico (Mateus, Marcos e Lucas)

  • Mateus 19:16–24; Marcos 10:17–25; Lucas 18:18–25 – Jesus manda o jovem vender tudo, dar aos pobres e segui-lo; depois diz: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus”. A ênfase recai sobre o desapego e o perigo de fazer da riqueza um ídolo que impede o discipulado.

1.2 A comunidade de bens em Atos dos Apóstolos

  • Atos 2:42–47 – Os primeiros cristãos “tinham tudo em comum”; vendiam propriedades e bens e distribuíam a cada um conforme a necessidade.
  • Atos 4:32–35 – “Ninguém considerava exclusivamente sua nenhuma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum... e repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.” Esse modelo de partilha voluntária e atenção aos necessitados é frequentemente apontado como um “socialismo primitivo” cristão, ainda que o texto não prescreva um sistema político-econômico universal.
  • Atos 5:1–11 – O episódio de Ananias e Safira reforça a seriedade da honestidade na partilha comunitária, mais do que proibir a propriedade privada.

1.3 Bem-aventuranças, parábolas e exortações

  • Lucas 6:20–26 – “Bem-aventurados vós, os pobres (...) mas ai de vós, os ricos”, acentuando uma inversão escatológica em que os marginalizados são privilegiados no Reino.
  • Lucas 16:19–31 – Parábola do rico e Lázaro, criticando a indiferença diante da miséria e o uso egoísta dos bens.
  • Mateus 6:19–24; Lucas 12:13–21 – “Não acumuleis tesouros na terra (...) Não podeis servir a Deus e às riquezas”; a parábola do “rico insensato” condena quem acumula para si sem ser “rico para com Deus”.
  • 1 Timóteo 6:6–10, 17–19 – “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro”; os ricos devem não confiar na riqueza, mas praticar o bem e ser generosos.
  • 2 Coríntios 8–9 – Paulo estimula a generosidade proporcional e a igualdade: “o que têm em abundância supram a necessidade dos outros”.
  • Tiago 5:1–6 – Forte denúncia aos ricos que oprimem trabalhadores e vivem em luxo, com linguagem de juízo contra a exploração.

Esses textos criticam a ganância, a idolatria da riqueza, a indiferença aos pobres e a injustiça, e exaltam a partilha e a prioridade pelos marginalizados. Eles não formulam um programa político socialista ou capitalista, mas oferecem uma ética do Reino que muitos movimentos cristãos leem como incompatível com um capitalismo centrado no lucro (o famoso 'capitalismo selvagem') e na acumulação sem limites.

2. Livro de Mórmon: comunidade de bens, orgulho e desigualdade

2.1 4 Néfi: “tinham todas as coisas em comum”

  • 4 Néfi 1:2–3 – Após a visita de Cristo às Américas, o texto descreve uma sociedade em que “não havia contendas nem disputas entre eles; e procediam retamente uns com os outros. E tinham todas as coisas em comum; portanto não havia ricos nem pobres, nem escravos nem livres, mas eram todos livres e participantes do dom celestial.” Essa descrição é frequentemente citada como o exemplo máximo de comunidade de bens e ausência de desigualdade econômica no Livro de Mórmon.
  • 4 Néfi 1:23–26 – Com o tempo, o povo “tornou-se imensamente rico”, começou a tornar-se orgulhoso, a usar roupas caras e “dessa época em diante não mais tiveram seus bens e suas posses em comum”, dividindo-se em classes. A narrativa mostra como a prosperidade mal orientada gera soberba e fragmentação social.

2.2 Discurso do rei Benjamim (Mosias)

  • Mosias 4:16–26 – Benjamim exorta: “reparti vosso sustento com os pobres”; “não julgueis vosso semelhante, mas julgai com justo juízo”; e adverte contra reter bens quando se pode ajudar, lembrando que todos dependem de Deus. O discurso enfatiza a generosidade sistemática e a responsabilidade coletiva para que não haja necessitados entre o povo.

2.3 Helamã 3: prosperidade, orgulho e “ciclo do orgulho”

  • Helamã 3 – Descreve um ciclo em que a prosperidade material leva à soberba; surgem distinções de riqueza, e alguns começam a “opor-se aos pobres” e a persegui-los, enquanto outros mantêm humildade e partilha. O capítulo critica a estratificação social baseada na riqueza e mostra como o acúmulo e o orgulho correlatos corroem a coesão comunitária.

2.4 Alma e os zoramitas; outros textos sobre riqueza e classe

  • Alma 31 – A missão aos zoramitas descreve um povo que, por orgulho e ganância, veste-se com roupas suntuosas, exalta-se em plataformas elevadas e despreza os mais pobres; Alma condena essa atitude e chama ao arrependimento, associando riqueza ostensiva e autojustiça religiosa à opressão e à indiferença social.
  • Alma 1:27–32 – Relata que, quando surgiram diferenças de riqueza, os membros da Igreja foram instruídos a repartir seus bens de modo que “não houvesse pobres entre eles”.
  • Alma 4:6–13 – Mostra como o orgulho e a busca de riquezas geram perseguição aos humildes e desigualdade, exigindo correção pelos líderes.
  • 3 Néfi 6:10–15 – Descreve uma época de grande prosperidade em que o povo se enche de orgulho, forma castas e persegue os fiéis pobres, preparando o terreno para juízo.

3. Para pensar em tempos de eleições

Em anos eleitorais, é fácil reduzir o Evangelho a slogans ou usá-lo para legitimar projetos de poder. As passagens acima convidam a perguntas mais profundas: que tipo de sociedade queremos construir? Como lidamos com a riqueza, com os pobres e com a justiça? Que valores orientam nosso voto e nossa participação pública? Tanto o Novo Testamento quanto o Livro de Mórmon apontam para uma ética de partilha, responsabilidade coletiva e prioridade pelos mais vulneráveis. Esse é um chamado que ultrapassa partidos e ideologias, mas que deveria marcar a vida de quem se diz seguidor de Cristo.

Texto elaborado para fins didáticos e de reflexão. As citações bíblicas e do Livro de Mórmon seguem as traduções oficiais em português disponíveis nas plataformas das respectivas igrejas e em Bíblias públicas.

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