“É isto um homem?” (Se questo è un uomo, 1947), de Primo Levi, é um livro-memória sobre a experiência do autor como prisioneiro judeu no campo de concentração de Auschwitz, entre 1944 e 1945. Muitos companheiros de Levi não sobreviveram a esse período de confinamento.
Levi, na época um jovem químico italiano 'sem juízo', narra de forma sóbria e precisa sua deportação, a chegada ao campo, a perda do nome (substituído por um número), a fome (o tempo todo se sente fome e, muitas vezes, sede), o trabalho exaustivo, a degradação física e moral, as estratégias mínimas e criativas de sobrevivência. Mais do que um relato do Holocausto, o livro é uma reflexão sobre a condição humana em situação-limite: como o sistema nazista buscava aniquilar não apenas corpos, mas a identidade, a dignidade e a noção de “ser humano” dos prisioneiros.
O título, tomado de um poema que abre a obra, já indica a pergunta central: o que resta do homem quando tudo lhe é retirado? Levi evita autopiedade ou um tom vingativo; sua escrita é clara, quase “científica”, o que torna o horror ainda mais contundente. O resultado é um testemunho ético e literário fundamental para pensar memória, responsabilidade e os limites da humanidade.
Trecho do prefácio do livro:
A necessidade de contar “aos outros”, de tornar “os outros” participantes, alcançou entre nós, antes e depois da libertação, caráter de impulso imediato e violento, até o ponto de competir com outras necessidades elementares. O livro foi concebido para satisfazer essa necessidade em primeiro lugar, portanto, com a finalidade e liberação interior. Daí seu caráter fragmentário: seus capítulos foram escritos não em sucessão lógica, mas por ordem de urgência (LEVI, 1998, p. 8).
LEVI, P. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
Para saber mais:
DE MACÊDO, Lucíola Freitas. Testemunho, extimidade e a escrita de Primo Levi. Revista de Letras, p. 51-65, 2012.
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Primo Michele Levi (Turim, 31 de julho de 1919 - Turim, 11 de abril de 1987) foi um químico, escritor e sobrevivente do Holocausto, considerado uma das vozes mais importantes do testemunho sobre os campos de concentração nazistas.
Nascido em família judia de classe média em Turim, formou-se em Química pela Universidade de Turim no início dos anos 1940, em pleno regime fascista. Em 1943, integrou a resistência antifascista (partigiano), foi preso e, por ser judeu, deportado para o campo de Auschwitz-Monowitz, onde permaneceu por onze meses (1944–1945). Sua formação científica e o conhecimento de alemão ajudaram-no a ser alocado em trabalhos menos brutais, o que, somado a fatores de acaso, contribuiu para sua sobrevivência.
Libertado pelos soviéticos em 1945, retornou a Turim, retomou a atividade como químico na indústria e, paralelamente, passou a escrever. Seu primeiro e mais famoso livro, “É isto um homem?” (Se questo è un uomo, 1947), relata sua experiência em Auschwitz com linguagem clara, ética e reflexiva. Ao longo da vida, publicou obras de memórias, ensaios, contos e ficção, muitas vezes articulando ciência e literatura; entre elas, destacam-se “A trégua” (sobre o retorno à Itália) e “A tabela periódica” (contos autobiográficos nomeados por elementos químicos).
Levi morreu em 1987, aos 67 anos, após cair da escadaria de seu apartamento em Turim. Sua morte foi amplamente interpretada como possível suicídio, embora haja debates sobre as circunstâncias. Sua obra permanece como referência fundamental para pensar memória, responsabilidade e os limites da condição humana após o Holocausto.
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