Astrônomos usando o Telescópio Espacial Hubble identificaram uma galáxia distante, catalogada como MXDFz4.4, que existia apenas cerca de 1,4 bilhão de anos depois do Big Bang, portanto em torno de 10% da idade atual do Universo.
O cenário cósmico: a Era da Reionização
Logo após o Big Bang, o Universo passou por um período conhecido como Era da Reionização, que começou aproximadamente 300 milhões de anos depois do início e se estendeu ao longo do primeiro bilhão de anos. Nesse intervalo, o espaço era preenchido por uma espécie de "névoa" de hidrogênio neutro, opaca à radiação mais energética emitida pelas primeiras estrelas e galáxias.
Com o tempo, a luz ionizante dessas estruturas recém-formadas começou a transformar o hidrogênio neutro em gás ionizado, transparente à radiação. É essa transição, de um Universo escuro e opaco para um meio transparente, onde a luz pode viajar livremente, que define a Era da Reionização.
Onde entra a galáxia MXDFz4.4
A MXDFz4.4 foi observada em um campo profundo de céu, região em que o Hubble acumula longas exposições para detectar sinais extremamente fracos de objetos distantes. Dados complementares de observatórios como o Very Large Telescope (VLT) permitiram estimar com precisão a época em que essa galáxia existiu: cerca de 1,4 bilhão de anos após o Big Bang.
O que torna MXDFz4.4 especial é que ela aparece justamente no fim da Era da Reionização, em um momento em que o Universo era uma mistura de regiões ainda opacas e outras já transparentes. Essa posição temporal faz dela um laboratório natural para estudar como pequenas galáxias contribuíram para "limpar" a névoa de hidrogênio neutro.
Luz ultravioleta ionizante: o sinal inesperado
Os astrônomos encontraram algo que não esperavam: luz ultravioleta ionizante proveniente de MXDFz4.4, ou seja, radiação com energia suficiente para arrancar elétrons dos átomos de hidrogênio e transformá-los em gás ionizado. Em teoria, o hidrogênio neutro presente naquele período deveria absorver quase toda essa radiação, impedindo que ela escapasse das galáxias e chegasse até nós.
No entanto, as longas exposições do Hubble revelaram que MXDFz4.4 abriga um conjunto de estrelas jovens e massivas, extremamente concentradas, que produzem justamente essa luz ionizante capaz de abrir "janelas" no gás neutro ao redor. A presença desse sinal sugere que, pelo menos em algumas galáxias, havia caminhos preferenciais por onde a radiação conseguia escapar, contrariando parte das expectativas teóricas iniciais.
Uma galáxia pequena, mas muito ativa
MXDFz4.4 é descrita como uma galáxia de "starburst": uma galáxia com surtos intensos de formação estelar em um intervalo relativamente curto de tempo. Estimativas indicam que ela é cerca de 100 vezes menor que a Via Láctea em massa, mas concentrada em jovens estrelas que nasceram poucos milhões de anos antes de ser observada.
Essas estrelas, densamente agrupadas, produzem fluxo de radiação ionizante suficiente para transformar o gás neutro dentro e ao redor da galáxia em gás ionizado, abrindo uma espécie de "buraco" ou corredor transparente por onde a luz ultravioleta consegue se propagar. A imagem combinada do Hubble e do James Webb mostra MXDFz4.4 como um objeto peculiar inserido em um campo de outras galáxias, evidenciando sua atividade extrema em comparação com o ambiente cósmico.
O artigo científico que descreve a descoberta
Os resultados mais detalhados sobre MXDFz4.4 foram publicados no artigo "MXDFz4.4: A LyC Emitter 250 Myr after the Epoch of Reionization and a First Test of Lyα Morphology as a Tracer of LyC Escape at High Redshift", de Ilias Goovaerts e colaboradores, na revista The Astrophysical Journal, em 23 de junho de 2026.
Nesse trabalho, a equipe discute MXDFz4.4 como uma emissora de fótons de contínuo de Lyman (LyC), relacionados à radiação ionizante, cerca de 250 milhões de anos após o término da Era da Reionização. O estudo também testa a morfologia da emissão de Lyman-alfa (Lyα) como possível traçador da fuga de fótons ionizantes em altos deslocamentos para o vermelho, conectando observações de luz visível e ultravioleta à física do gás intergaláctico.
Por que MXDFz4.4 é importante para a cosmologia
Ao detectar luz ionizante em uma galáxia tão distante e jovem, os astrônomos obtêm uma evidência direta de que pequenas galáxias de starburst podem ter desempenhado um papel fundamental em clarear o Universo, transformando o gás neutro em gás ionizado e tornando o cosmos transparente.
MXDFz4.4 estabelece um precedente crítico: se uma galáxia relativamente pequena é capaz de gerar um fluxo tão intenso de radiação ionizante, outras galáxias semelhantes no início do Universo podem ter contribuído coletivamente para encerrar a Era da Reionização. Isso ajuda a preencher lacunas entre modelos teóricos e observações, indicando que a estrutura da "névoa" de hidrogênio neutro era mais complexa e cheia de regiões perfuradas por luz do que se imaginava.
Uma janela para o passado cósmico
Do ponto de vista da divulgação científica, MXDFz4.4 funciona como uma janela para um momento decisivo da história cósmica: a transição do Universo jovem, escuro e opaco para o Universo transparente que conhecemos hoje, em que luz de estrelas e galáxias pode viajar por bilhões de anos até chegar aos nossos telescópios.
Observações como essa, combinando instrumentos como Hubble, James Webb e telescópios em solo, mostram como a astronomia moderna não se limita a formar belas imagens, mas também reconstrói a cronologia física de processos que ocorreram há bilhões de anos. MXDFz4.4 é, nesse sentido, mais do que uma galáxia distante: é um marcador histórico da capacidade das primeiras gerações de estrelas de transformar o Universo em um lugar transparente para a luz.
Referências
- GOOVAERTS, Ilias et al. MXDFz4.4: A LyC Emitter 250 Myr after the Epoch of Reionization and a First Test of Lyα Morphology as a Tracer of LyC Escape at High Redshift. The Astrophysical Journal, 2026. Disponível em: https://science.nasa.gov/missions/hubble/hubble-details-early-galaxy-transforming-neighborhood/. Acesso em: 5 jul. 2026.
- NASA SCIENCE. Hubble Details Early Galaxy Transforming Neighborhood. 2026. Disponível em: https://science.nasa.gov/missions/hubble/hubble-details-early-galaxy-transforming-neighborhood/. Acesso em: 5 jul. 2026.
- ESA/HUBBLE. Galaxy MXDFz4.4 (Hubble and Webb Image). 2026. Disponível em: https://esahubble.org/images/heic2609a/. Acesso em: 5 jul. 2026.
- ESA/HUBBLE. Galaxy field of MXDFz4.4 (Hubble and Webb clean image). 2026. Disponível em: https://esahubble.org/images/heic2609b/. Acesso em: 5 jul. 2026.
- SUPERINTERESSANTE. Hubble detecta luz de galáxia primitiva que astrônomos achavam ser “impossível observar”. 2026. Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/hubble-detecta-luz-de-galaxia-primitiva-que-astronomos-achavam-ser-impossivel-observar/. Acesso em: 5 jul. 2026.
- PHYS.ORG. Hubble details early galaxy transforming neighborhood 1.4 billion years after Big Bang. 2026. Disponível em: https://phys.org/news/2026-06-hubble-early-galaxy-neighborhood-billion.html. Acesso em: 5 jul. 2026.












