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| Recebendo a premiação. |
Mário Santos Souza acordou cedo, tomou um banho rápido, fez a barba – não foi fácil, a lâmina já estava gasta e arranhava o rosto. Conferiu o horário no celular velho: ainda tinha tempo para fazer um lanche rápido, mas preferiu permanecer em jejum e apenas bebeu um pouco de água. Precisava economizar o máximo que podia: estava desempregado e os parcos recursos já se esgotavam. Perder o emprego fora um duro golpe, algo que estava completamente fora de suas expectativas. A reestruturação da empresa onde trabalhava pegou vários trabalhadores experientes de surpresa.
Procurou a roupa, os sapatos, as meias. Em poucos minutos estaria pronto para sair. Conferiu novamente o endereço. Iria participar de mais uma entrevista de emprego. Seria a terceira ou quarta neste mês. Não estava particularmente animado, mas tinha esperança que desta vez daria certo. Enquanto se aprontava, repassava mentalmente as possíveis perguntas que poderiam ser feitas. Ensaiava as respostas, não queria parecer inseguro ou hesitante como nas últimas entrevistas. Esse era o preço por passar muito tempo em um emprego: fica-se completamente enferrujado para enfrentar esses processos seletivos. Antes de sair de casa, fez uma breve oração, afinal nunca se sabe quais perigos se pode enfrentar fora de casa.
Do outro lado da cidade, o jovem K. não teve uma boa noite de sono. Na verdade, nem chegou a dormir propriamente. Havia bebido muito, passado do limite e, mesmo assim, conseguido chegar em casa em seu carro. Milagrosamente, o velho Gol cinza estava intacto, apenas mal estacionado.
Ao mesmo tempo, não muito longe dali, em outro plano, dois seres etéreos, Belial e Uriel, discutiam como seria o dia e o futuro de Mário e de K. Belial dizia:
_ Tenho o direito de fazer o que eu quiser com esse Mário ou qualquer outro humano. Fui autorizado!
Uriel retrucou:
_ Você sabe que isso não é inteiramente verdadeiro. Você não foi proibido de interferir nas coisas terrenas, mas isso está muito longe de ser uma autorização formal para virar do avesso a vida de Mário ou de qualquer outra pessoa!
_ Você está falando igual a um advogado! E eu detesto advogados! Veremos se você é capaz de me impedir! Você também não tem nenhuma autorização especial, Uriel.
_ Você sabe que não podemos intervir no mundo deles. O destino deles não está em nossas mãos. Foi dado a eles o livre arbítrio, não lembra? O que te motiva Belial?
_ Você sabe que eu não tenho o direito de ser feliz. Se não me foi dado, por que deveria ser permitido a eles?
E sumiu repentinamente. Uriel ficou só e pensativo.
Completamente alheio a essa discussão, Mário se pôs a caminho. Teria que andar um pouco, esperar alguns minutos e pegar um coletivo, percorrer mais umas duas quadras e chegar ao local da entrevista que ficava no centro histórico da cidade. Pelos seus cálculos, chegaria uns 15 minutos antes do horário marcado. Tudo dentro do previsto, tudo humanamente calculado.
Enquanto Mário estava iniciando sua jornada, do outro lado da cidade, K. despertou. Ele estava muito zonzo, com a boca seca, o mundo parecia girar e ondular. Pensou em dormir um pouco mais. Contudo, ouviu uma voz bem clara: é hora de levantar, pegue o carro, você tem um compromisso no centro velho da cidade. Se apresse! K. se levantou meio trôpego, viu a chave do carro no chão, perto do banheiro. Ele não ficou especulando do motivo da chave estar ali, apenas a buscou. Em dois minutos já estava acelerando o seu carro. No outro plano, Belial ria satisfeito. Seu esquema estava em andamento, mas ainda exigiria ajustes para funcionar completamente.
Dentro do coletivo, pela janela Mário via passar vários carros grandes, até luxuosos com apenas o motorista. Isso não era injusto? Enquanto ele e seus colegas de viagem precisam se ajustar aos horários dos coletivos e, muitas vezes, andar apertados e desconfortáveis, alguns podiam muito e ostentavam luxo diariamente. Ele compreendia como o mundo funcionava, afinal eram mais de quarenta anos de vida com recursos exíguos. Quando jovem, tentou conciliar o trabalho com os estudos universitários. Não deu. Optou, ou melhor, o sistema o obrigou a optar pelo trabalho. Ele precisava ajudar a sustentar os irmãos mais novos, o pai havia se perdido no mundo, deixando apenas alguma mágoa e um vazio difuso.
Mário despertou desses pensamentos e percebeu que já estava quase no final de seu trajeto. Deu sinal e desceu no ponto planejado. Agora só faltava uma curta caminhada até o seu destino. Tudo dentro do prazo. Já eram quase sete horas e trinta minutos. Mário gostava de ser pontual e, em geral, era mesmo pontual. Esse era um dos seus pontos fortes, tinha que lembrar de falar isso durante a entrevista. Ele também pensou que seria bom enfatizar que a idade não era um ponto negativo, mas um tipo de comprovante de experiência acumulada. O tipo de experiência que não se adquire em uma faculdade ou conversando com uma dessas inteligências artificiais.
Belial continuava seus sussurros e K. continuava dando ouvidos. Acelerar, reduzir, direita, esquerda, segue em frente ... K. agia como um autômato, sem ter consciência plena do que estava fazendo ou ver claramente para onde estava indo, pois a sua visão ainda estava meio turva. Apenas mantinha o carro acelerando sobre o asfalto, quase causando acidentes, mas seguindo fielmente os sussurros de Belial.
Mário estava prestes a atravessar a última rua. Estava na faixa de pedestre. O centro histórico estava calmo, as lojas ainda não estavam funcionando, somente as padarias. A cidade não era muito grande e acordava de forma lenta, espreguiçando-se longamente antes de entrar em um ritmo mais intenso. Ele olhou para os dois lados, não avistou nenhum carro vindo, começou a travessia tranquilo, imerso em seus pensamentos e no planejamento. O Sol brilhava pouco acima do horizonte.
K. subitamente virou à esquerda, a claridade do Sol lhe prejudicou a visão, mesmo assim acelerou ainda mais. Acabou desviando-se excessivamente para a direita, a metade do carro subiu na calçada, sentiu um solavanco e um forte impacto. Um segundo barulho, seco, intenso, foi ouvido quase no mesmo instante. Ele havia atingido algo ou alguém. Em pânico, K. puxou o carro para fora da calçada e seguiu acelerando. A última coisa que ouviu foi ‘corre’. E K. correu o máximo que seu velho Gol permitia, sem pensar ou olhar para trás. Belial sorria discretamente.
O corpo de Mário jazia imóvel, contorcido, encostado na parede de uma loja, bem próximo ao local da entrevista. Um último pensamento lhe atravessou a mente: “ ... eu estava tão perto, tão perto.” Populares, atônitos e incrédulos começaram a chegar, entre eles estava a pessoa que iria entrevistá-lo. A entrevista tão metodicamente planejada e desejada por Mário jamais ocorreria.
Uriel fez o que estava autorizado a fazer: recebeu o espírito ainda atordoado de Mário no outro plano.










