A retórica segundo a qual jovens “perdem tempo” ao cursar o ensino superior ganhou força nas redes sociais e em certos púlpitos religiosos, alimentando uma espécie de culto à ignorância. Em nome de uma suposta “esperteza prática”, desqualifica-se a universidade, o estudo sistemático e a dedicação intelectual, como se fossem luxo inútil ou obstáculo ao sucesso. Esse discurso, porém, entra em choque frontal com as evidências disponíveis sobre o papel da educação na mobilidade social e na própria estrutura das sociedades contemporâneas. Em países da OCDE, trabalhadores com educação terciária em tempo integral ganham, em média, quase o dobro daqueles com escolaridade abaixo do ensino médio, indicando um prêmio salarial robusto associado à formação superior. No Brasil, estimativas recentes mostram que adultos de 25 a 64 anos com diploma de ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que possuem apenas o ensino médio, uma diferença muito acima da média dos países desenvolvidos. (Ver: https://www.oecd.org/en/topics/sub-issues/earnings-by-educational-attainment.html)
Esse padrão não se restringe à classe média. Estudo sobre a formação educacional de bilionários indica que cerca de 76% deles possuem algum tipo de graduação, e uma parcela relevante apresenta títulos de pós-graduação, sugerindo que mesmo entre os muito ricos a trajetória de estudo formal é predominante. É claro que há exceções célebres de pessoas que enriqueceram sem concluir a universidade, mas o ponto central da estatística é outro: apostar na ausência de formação é apostar na exceção, não na regra. Para a esmagadora maioria dos jovens, especialmente os oriundos das classes populares, a educação formal permanece como um dos poucos mecanismos institucionais capazes de ampliar horizontes profissionais, melhorar salários e oferecer alguma proteção contra a precarização do trabalho. Quando figuras de autoridade minimizam esse caminho, elas não “libertam” o jovem do suposto peso da universidade; elas, na prática, o afastam de uma das principais alavancas de mobilidade social disponíveis. (Ver: https://www.bbc.com/news/business-35631029)
A promoção do “culto à ignorância” também tem implicações políticas e culturais. Uma população com menor escolaridade tende a ter menos acesso a informações qualificadas, menos capacidade de interpretar criticamente dados e discursos e, portanto, maior vulnerabilidade a desinformação, extremismos e manipulações. Ao deslegitimar a universidade, abre-se espaço para substituir o debate informado por slogans fáceis e crenças dogmáticas. Isso contrasta com a visão de líderes políticos e intelectuais que, ao longo do século XX e XXI, destacaram a centralidade da educação no combate à desigualdade e à opressão. Nelson Mandela, por exemplo, sintetiza essa perspectiva ao defender a educação como “a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, enfatizando o seu papel estrutural na transformação social. No Brasil, Lula costuma associar sua própria trajetória e suas políticas públicas à ampliação do acesso à escola e à universidade, especialmente para jovens pobres, como estratégia de inclusão e dignidade. (Ver: https://www.adruk.org/our-mission/our-impact/the-impact-of-higher-education-on-labour-market-earnings/)
Essas posições não são meras opiniões generosas, mas respostas a um quadro empírico consistente. Relatórios internacionais mostram que níveis mais altos de escolaridade se relacionam com maior produtividade, melhores salários, maior participação cívica e melhor saúde, compondo um círculo virtuoso entre educação, economia e cidadania. Ao sugerir que os jovens abandonem esse caminho, alguns influenciadores e líderes religiosos oferecem uma narrativa sedutora de “atalhos” para o sucesso, normalmente apoiada em casos excepcionais e em uma retórica de “guerra cultural” contra a ciência e as instituições de ensino. Em vez de convidar os jovens a desenvolverem espírito crítico, essas vozes reforçam a ideia de que basta “ter fé” ou “ser esperto” para prosperar, desresponsabilizando o Estado por políticas educacionais robustas e naturalizando a desigualdade de oportunidades. (Ver: https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2024_c00cad36-en.html)
Há, evidentemente, problemas reais nas universidades e no sistema educacional: currículos desatualizados, ensino excessivamente teórico, dificuldades de inserção profissional em certas áreas, mensalidades proibitivas no setor privado. Ignorar essas falhas seria tão ingênuo quanto demonizar a educação. A resposta, contudo, não é abandonar o ensino superior, mas reformá-lo, aproximando-o do mundo do trabalho sem abrir mão da formação humanística, científica e cidadã. Ao mesmo tempo, é preciso combater a ideia de que “curso superior” equivale apenas à busca de um diploma qualquer; trata-se de promover percursos formativos significativos, que façam sentido para a realidade dos estudantes e para os desafios contemporâneos, inclusive no campo tecnológico.
Nesse contexto, defender o estudo, a universidade e o conhecimento não é um gesto elitista, mas um ato político em favor dos que mais dependem de políticas públicas para ter acesso a essas oportunidades. O culto à ignorância, ao contrário, funciona como uma sofisticada forma de controle social: valoriza-se a “simplicidade” apenas para quem não pode escolher, enquanto as elites seguem investindo pesadamente na formação de seus filhos. Ao jovem que ouve que “faculdade é perda de tempo”, é preciso mostrar os números, mas também as histórias concretas de mobilidade e emancipação construídas pela via da educação. Entre a promessa fácil dos atalhos e o caminho exigente do estudo, a experiência histórica e os dados disponíveis indicam com clareza qual dos dois tem maior chance de produzir liberdade real. (Ver: https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html)



















