Em geral, concordamos que devemos ser tolerantes com as outras pessoas. Devemos aceitar que pensem diferente, que tenham religiões diferentes, que torçam por times de futebol diferentes e até que não gostem de pudim ou não bebam café. Porém, surge a questão: em nome dessa tolerância, devemos aceitar a intolerância de pessoas ou grupos que ofendam gravemente a população ou uma parte dela?
Essa aparente contradição descreve diretamente o chamado Paradoxo da Tolerância, formulado pelo filósofo Karl Popper em sua obra A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), escrita no contexto pós-Segunda Guerra Mundial.
A questão central é: se a tolerância for ilimitada, ela acaba destruindo a si mesma?
O Nó Filosófico
À primeira vista, parece uma contradição lógica ou hipocrisia afirmar: "Somos a favor da tolerância, exceto com os intolerantes". Afinal, se estabelecemos um limite para quem podemos aceitar, não estaríamos nos tornando intolerantes também?
A resposta de Popper para essa aparente contradição reside na autodefesa da sociedade aberta:
- A Tolerância como um Contrato, não como um Dogma: A tolerância não é um valor absoluto nem um estado estático; funciona como um pacto social de convivência. Se um dos lados quebra o contrato ao tentar impor sua vontade pela violência, pela supressão do outro ou pela negação de direitos fundamentais, o pacto perde a validade para esse indivíduo ou grupo.
- A Sobrevivência da Própria Tolerância: Se uma sociedade for infinitamente tolerante, a sua capacidade de aceitar eventualmente será explorada e destruída pelos intolerantes. Para manter uma sociedade livre e pluralista — onde as pessoas possam discordar sobre religião, política e até sobre pudim —, é preciso proteger as regras do jogo.
O Limite do Paradoxo
É importante ressaltar que Popper não defendia a censura imediata de qualquer ideia divergente. Pelo contrário: ele enfatizava que ideias intolerantes ou radicais devem primeiro ser combatidas com o debate público, argumentos racionais e a opinião pública.
A repressão ou a intolerância defensiva só se justificam em cenários nos quais o grupo intolerante:
- Recusa-se a debater no campo das ideias e da razão;
- Proíbe ou desencoraja seus seguidores de ouvir argumentos racionais;
- Responde a argumentos com violência, ameaça ou incitação ao preconceito grave e à discriminação.
"A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada, mesmo para aqueles que são intolerantes, e se não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e tolerância com eles. - Esta formulação, não implica que devemos sempre suprimir as filosofias intolerantes, contanto que possamos combatê-las por argumentos racionais e mantê-las sob controle pela opinião pública.
Mas devemos reivindicar o direito de suprimi-las, se necessário até mesmo pela força, e isso pode facilmente acontecer se elas não estiverem preparadas em debater no nível de argumentação racional, ao começar por criticar todos os argumentos e proibindo seus seguidores de ouvir argumentos racionais, devido ela ser uma filosofia enganosa, ensinando-os a responder a argumentos com uso de punhos ou pistolas.
Devemos, portanto, reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos enfatizar que qualquer movimento que pregue a intolerância deva ser colocado fora da lei, e devemos considerar a incitação à intolerância e perseguição devido a ela, como criminal, da mesma forma como devemos considerar a incitação ao assassinato, ou seqüestro, ou para a revitalização do comércio de escravos como criminoso." -- Karl Popper.
Em resumo, não se trata de uma contradição de princípios, mas de um mecanismo de preservação. A intolerância contra a intolerância grave não busca exterminar opiniões diferentes, mas impedir que o espaço democrático e pluralista seja destruído por quem deseja anulá-lo.
-------------------------
Karl Raimund Popper (1902–1994) foi um dos filósofos da ciência e pensadores políticos mais influentes do século XX. Nascido em Viena, na Áustria, em uma família de origem judaica convertida ao luteranismo, Popper cresceu em um período de intensa efervescência intelectual e turbulência política na Europa. Popper estudou na Universidade de Viena, onde concluiu o doutoramento em psicologia em 1928. Em sua obra-prima A Lógica da Pesquisa Científica (1934), formulou o falsificacionismo: uma teoria só é científica se puder ser testada e potencialmente refutada por dados empíricos. Diante da ascensão do nazismo na Áustria, Popper emigrou em 1937 para a Nova Zelândia, onde lecionou na Universidade de Canterbury. Foi nesse período de exílio que escreveu suas principais obras de filosofia política como resposta ao avanço dos regimes totalitários na Europa. Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), Popper criticou pensadores clássicos como Platão, Hegel e Marx por fundamentarem visões autoritárias da sociedade. Defendeu que a democracia não deve buscar o "governante perfeito", mas criar instituições que permitam remover maus governantes sem o uso da violência. Após a guerra, mudou-se para o Reino Unido em 1946 para lecionar na London School of Economics (LSE), onde permaneceu até sua aposentadoria. Foi condecorado com o título de Sir pela Rainha Elizabeth II em 1965. Manteve-se intelectualmente ativo até a sua morte aos 92 anos de idade.


