terça-feira, 27 de outubro de 2026

Como saber se eu estou certo e os outros estão errados?

Como saber se estou certo e os outros estão errados?

Você pode nunca ter certeza absoluta de que está certo e essa é justamente a postura mais saudável diante de polêmicas. É possível, porém, ter crenças bem justificadas: mais coerentes com as evidências, mais capazes de explicar os fatos e mais abertas à correção do que outras alternativas.

As paixões realmente podem cegar, mas o antídoto não é a ausência de paixão; é a paixão disciplinada pela dúvida, pelas evidências e pela disposição de mudar de ideia. Em outras palavras, devemos cultivar uma paixão moderada (eu sei que isso pode ser muito difícil na prática).

Um exemplo simples é o do torcedor apaixonado pelo seu time de futebol. Ele pode reconhecer que o adversário atravessa uma fase melhor, mesmo sem deixar de torcer pelo seu clube. Os números podem mostrar isso: o rival está mais bem classificado no campeonato, tem melhor saldo de gols, uma defesa mais consistente e um desempenho mais regular ao longo da temporada. Reconhecer esses fatos não exige abandonar a paixão; exige apenas não transformá-la em negação da realidade.

Por que nos enganamos

Somos naturalmente inclinados a defender posições que já adotamos. A psicologia cognitiva mostra que buscamos, interpretamos e lembramos informações de modo a confirmar nossas crenças, o chamado viés de confirmação. Também tendemos a sentir que nosso grupo está certo e que o grupo contrário é irracional, mal-intencionado ou ignorante.

Isso não significa que todas as opiniões valham o mesmo. Significa que o fato de você sentir muita convicção não é evidência de que está certo. Às vezes, quanto mais forte é a emoção, maior deve ser o cuidado metodológico.

Como saber se você não está cego

Não existe um teste definitivo, mas há sinais de que sua posição é epistemicamente mais sólida:

  • Você consegue formular a melhor versão do argumento oposto. Se só conhece caricaturas da outra posição, ainda não está em condições de julgá-la.
  • Você procura evidências que poderiam refutá-lo, não apenas as que o confirmam.
  • Você distingue fatos, interpretações e valores. Muitas polêmicas misturam as três coisas.
  • Você aceita mudar de ideia diante de evidência forte, mesmo quando isso é desconfortável.
  • Você confia mais em métodos do que em intenções. Uma pessoa pode ter más intenções e, ainda assim, apresentar um dado correto; e uma pessoa simpática pode estar enganada.
  • Você consulta fontes independentes e qualificadas, em vez de apenas repetir quem já pensa como você.
  • Você admite incerteza proporcional à evidência. Dizer “ainda não sei” ou “minha conclusão é provisória” não é fraqueza intelectual.

Um bom exercício é perguntar: “Que tipo de evidência me faria abandonar essa crença?” Se a resposta for “nenhuma”, você não está defendendo uma tese; está protegendo uma identidade -- e, provavelmente, está errado.

Quando é razoável afirmar que os outros erram

Você pode dizer que outra pessoa está errada quando consegue mostrar, com clareza, pelo menos uma destas condições:

  1. Os fatos que ela afirma não correspondem às melhores evidências disponíveis.
  2. Sua inferência não decorre logicamente dos fatos que ela aceita.
  3. Ela usa critérios diferentes apenas quando isso favorece sua conclusão.
  4. Sua explicação é menos parcimoniosa, menos consistente ou menos preditiva que a alternativa.
  5. Ela ignora sistematicamente contraprovas relevantes.

Mas há uma diferença importante entre dizer “você está errado” e dizer “você é ignorante, mau ou de má-fé”. A primeira é uma afirmação sobre argumentos; a segunda, sobre a pessoa. Em debates públicos, confundir as duas coisas costuma transformar discussão em guerra.

O papel das paixões

As paixões não são inimigas do pensamento. Sem interesse, indignação ou cuidado, muitas pessoas não se mobilizariam para investigar injustiças, erros científicos ou problemas sociais. O problema começa quando a paixão passa a selecionar as evidências em vez de ser orientada por elas. Um matemático que não tivesse paixão por matemática nunca seria um matemático (sim, algumas pessoas gostam de verdade de matemática).

A questão não é: “Estou apaixonado por essa causa?”
É: “Minha paixão me torna mais ou menos capaz de reconhecer quando estou errado?”
Uma segunda questão: “Essa apaixão está me tornando intolerante com as outras pessoas?”

Uma postura possível

Talvez a melhor resposta seja esta: procure não estar certo contra os outros, mas estar disposto a mudar de opinião diante de evidências. Isso exige humildade sem relativismo: você não precisa concluir que “cada um tem sua verdade”, mas pode reconhecer que sua verdade é sempre parcial, revisável e dependente de melhores argumentos.

No espírito do ceticismo científico, uma teoria bonita, uma convicção intensa ou uma maioria entusiasmada não substituem o teste da realidade. E algumas verdades podem estar escondidas atrás de muitas camadas de falsas aparências.

Em suma: você nunca terá garantia total de não estar cego; mas pode reduzir muito o risco ao tornar sua própria posição falsificável, expô-la a críticas competentes e aceitar que o adversário pode ter razão em algum ponto.


Obs: postagem inspirada em uma conversa que eu tive com a minha amiga Terezinha Narbal.

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