Você pode nunca ter certeza absoluta de que está certo e essa é justamente a postura mais saudável diante de polêmicas. É possível, porém, ter crenças bem justificadas: mais coerentes com as evidências, mais capazes de explicar os fatos e mais abertas à correção do que outras alternativas.
As paixões realmente podem cegar, mas o antídoto não é a ausência de paixão; é a paixão disciplinada pela dúvida, pelas evidências e pela disposição de mudar de ideia. Em outras palavras, devemos cultivar uma paixão moderada (eu sei que isso pode ser muito difícil na prática).
Um exemplo simples é o do torcedor apaixonado pelo seu time de futebol. Ele pode reconhecer que o adversário atravessa uma fase melhor, mesmo sem deixar de torcer pelo seu clube. Os números podem mostrar isso: o rival está mais bem classificado no campeonato, tem melhor saldo de gols, uma defesa mais consistente e um desempenho mais regular ao longo da temporada. Reconhecer esses fatos não exige abandonar a paixão; exige apenas não transformá-la em negação da realidade.
Por que nos enganamos
Somos naturalmente inclinados a defender posições que já adotamos. A psicologia cognitiva mostra que buscamos, interpretamos e lembramos informações de modo a confirmar nossas crenças, o chamado viés de confirmação. Também tendemos a sentir que nosso grupo está certo e que o grupo contrário é irracional, mal-intencionado ou ignorante.
Isso não significa que todas as opiniões valham o mesmo. Significa que o fato de você sentir muita convicção não é evidência de que está certo. Às vezes, quanto mais forte é a emoção, maior deve ser o cuidado metodológico.
Como saber se você não está cego
Não existe um teste definitivo, mas há sinais de que sua posição é epistemicamente mais sólida:
- Você consegue formular a melhor versão do argumento oposto. Se só conhece caricaturas da outra posição, ainda não está em condições de julgá-la.
- Você procura evidências que poderiam refutá-lo, não apenas as que o confirmam.
- Você distingue fatos, interpretações e valores. Muitas polêmicas misturam as três coisas.
- Você aceita mudar de ideia diante de evidência forte, mesmo quando isso é desconfortável.
- Você confia mais em métodos do que em intenções. Uma pessoa pode ter más intenções e, ainda assim, apresentar um dado correto; e uma pessoa simpática pode estar enganada.
- Você consulta fontes independentes e qualificadas, em vez de apenas repetir quem já pensa como você.
- Você admite incerteza proporcional à evidência. Dizer “ainda não sei” ou “minha conclusão é provisória” não é fraqueza intelectual.
Um bom exercício é perguntar: “Que tipo de evidência me faria abandonar essa crença?” Se a resposta for “nenhuma”, você não está defendendo uma tese; está protegendo uma identidade -- e, provavelmente, está errado.
Quando é razoável afirmar que os outros erram
Você pode dizer que outra pessoa está errada quando consegue mostrar, com clareza, pelo menos uma destas condições:
- Os fatos que ela afirma não correspondem às melhores evidências disponíveis.
- Sua inferência não decorre logicamente dos fatos que ela aceita.
- Ela usa critérios diferentes apenas quando isso favorece sua conclusão.
- Sua explicação é menos parcimoniosa, menos consistente ou menos preditiva que a alternativa.
- Ela ignora sistematicamente contraprovas relevantes.
Mas há uma diferença importante entre dizer “você está errado” e dizer “você é ignorante, mau ou de má-fé”. A primeira é uma afirmação sobre argumentos; a segunda, sobre a pessoa. Em debates públicos, confundir as duas coisas costuma transformar discussão em guerra.
O papel das paixões
As paixões não são inimigas do pensamento. Sem interesse, indignação ou cuidado, muitas pessoas não se mobilizariam para investigar injustiças, erros científicos ou problemas sociais. O problema começa quando a paixão passa a selecionar as evidências em vez de ser orientada por elas. Um matemático que não tivesse paixão por matemática nunca seria um matemático (sim, algumas pessoas gostam de verdade de matemática).
A questão não é: “Estou apaixonado por essa causa?”
É: “Minha paixão me torna mais ou menos capaz de reconhecer quando estou errado?”
Uma segunda questão: “Essa apaixão está me tornando intolerante com as outras pessoas?”
Uma postura possível
Talvez a melhor resposta seja esta: procure não estar certo contra os outros, mas estar disposto a mudar de opinião diante de evidências. Isso exige humildade sem relativismo: você não precisa concluir que “cada um tem sua verdade”, mas pode reconhecer que sua verdade é sempre parcial, revisável e dependente de melhores argumentos.
No espírito do ceticismo científico, uma teoria bonita, uma convicção intensa ou uma maioria entusiasmada não substituem o teste da realidade. E algumas verdades podem estar escondidas atrás de muitas camadas de falsas aparências.
Em suma: você nunca terá garantia total de não estar cego; mas pode reduzir muito o risco ao tornar sua própria posição falsificável, expô-la a críticas competentes e aceitar que o adversário pode ter razão em algum ponto.
Obs: postagem inspirada em uma conversa que eu tive com a minha amiga Terezinha Narbal.
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