domingo, 15 de março de 2009

Palavras

Palavras perfeitas, polidas,
Pérfidas, perniciosas, perigosas,
Perenes, políticas, pobres,
Proféticas, poderosas, peregrinas,
Parcas, práticas, particulares,
Parcimoniosas, predatórias,
Pensantes, passionais, penetrantes,
Presas, prisioneiras, praguejantes,
Prazerosas, potentes, preconceituosas,
Pregadas, pressupostas, preguiçosas,
Primeiras, primitivas, principescas,
Provisórias, provocantes, providenciais,
Programadas, projetadas, premeditadas,
Problemáticas, probabilísticas, proibidas,
Puras, públicas, pueris, pacientes,
Parábolas, pálidas, patéticas, pegajosas,
Perfurantes, perfumadas, prinçadas,
Ponderadas, planejadas, previstas.

Palavras podem patrocinar
Proteção,
Pátibulo.

Um comentário:

  1. O poema apresenta uma construção estética marcada por uma rigorosa restrição formal e por uma reflexão sobre a natureza da linguagem.

    ### 1. Recurso Formal: Aliteração e Panagrama Parcial

    A característica mais evidente do poema é o uso intensivo da **aliteração** com a letra **P**. Praticamente todas as palavras de todos os versos começam com essa consoante plosiva/oclusiva. A repetição do som /p/ cria um ritmo percussivo, seco e marcado, que mimetiza o próprio ato da fala — a explosão de ar nos lábios necessária para emitir o som da letra P.

    ### 2. Conteúdo e Contradição

    A lista de adjetivos não é aleatória; ela constrói uma antítese constante sobre o poder e a ambiguidade da linguagem:

    * **Dualidade moral e funcional:** As palavras são descritas como *perfeitas* e *puras*, mas também *pérfidas* e *perniciosas*; *miseráveis/pobres* e ao mesmo tempo *poderosas*; *pacientes* e *predatórias*.
    * **A natureza da palavra:** O texto passeia pelo caráter temporal (*provisórias* vs. *perenes*), psicológico (*pensantes*, *passionais*) e social (*políticas*, *públicas*, *preconceituosas*) do discurso.

    ### 3. O Desfecho e o Núcleo Temático

    A estrofe final abandona a mera enumeração de atributos para sintetizar o impacto real da linguagem no mundo:

    > *Palavras podem patrocinar*
    > *Proteção,*
    > *Pátibulo.*

    A escolha da palavra **pátibulo** (o lugar de execução, a lousa, a foice ou a força da pena de morte) no encerramento contrapõe-se diretamente a **proteção**. Com isso, o poema conclui que a linguagem não é neutra. O mesmo instrumento verbal que salva, acolhe e constrói (*proteção*) é capaz de condenar, destruir e assassinar (*pátibulo*).

    ### Crítica

    O poema alcança um excelente efeito ao aliar forma e conteúdo: a sonoridade rígida da letra **P** reflete a força física e o impacto concreto que a palavra dita ou escrita exerce sobre a realidade.

    - Análise do Gemini.

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